Nem todo buraco é vazio: um sonho no luto

☕️ Hoje a prosa é escrita.

Porque a fala está engasgada.
Doída demais.

As letras, traduzidas em palavras, dão vazão à emoção na medida certa,
sem desorganizar demais.

Hoje faz um mês da partida da minha pequena.

Essa madrugada, sonhei.

Via uma obra ao lado de casa:
um buraco imenso, profundo… daqueles que sustentam prédios muito altos.

E, de repente, o sonho deixava de ser imagem.

Virava sensação.

A Spotinha… imensa.
E eu me aninhava nela.

Sentia o pelo, o calor, o bigodinho encostando em mim.

O mesmo aconchego de quando chorei com as cinzas dela nas mãos.

Acordei chorando.

E, por um instante, parecia que aquele buraco era só vazio.

Mas talvez não seja.

Na psicologia junguiana, compreendemos que a psique não trabalha apenas com ausência,
mas também com transformação.

Alguns buracos não são queda.

São fundação.

Talvez a profundidade dessa dor esteja preparando, em mim, algo que ainda não consigo ver,
mas que já começa, silenciosamente, a me sustentar.

Porque o vínculo, quando é verdadeiro, não desaparece.

Ele muda de lugar.

E, às vezes, vira colo por dentro. 🌻